quinta-feira, 26 de maio de 2016

Porque fazer uma greve?



Expressar indignação e garantir a sobrevivência. Talvez esses sejam os motivos que melhor respondem à pergunta acima. Melhor dizendo, eles não respondem, eles representam o sentimento de descaso e abandono vivenciado por cada professor do magistério estadual a cada dia que vê seu trabalho e seu esforço em prol da educação despedaçados por uma política governamental que, sem exagero, “quer matá-lo à míngua”. O parcelamento dos salários do funcionalismo, posto em prática pela política do governo Sartori, condenou-nos a atrasar pagamentos e, de quebra, obriga-nos a contrair mais dívidas.
Garantir os direitos que ainda nos restam. O IPE (plano de saúde do funcionalismo gaúcho) está ameaçado, pois a proposta do governo é torná-lo opcional e cobrar por hospitalização e dependentes. A Lei do Piso, tão sonhada e festejada há um tempo, tornou-se um pesadelo. A defasagem do piso salarial encontra-se em 69,44% e, para piorar ainda mais nossa situação, que já é desesperadora, a LDO prevê o congelamento do salário do funcionalismo.
Evitar o atraso no repasse de verbas. Nossas escolas estão sucateadas e faltam itens básicos para o funcionamento da vida escolar, tais como: material de limpeza e higiene, folhas brancas, giz, etc. Nossos alunos não recebem merenda na escola porque não temos dinheiro para comprar comida. Parte dessa verba, é verdade, foi disponibilizada às escolas, no entanto tais recursos vêm para remediar a situação. O que acontece na sequência?
Impedir a privatização da educação pública. A exemplo do processo que foi iniciado em escolas de Goiás, uma das metas do governo Sartori para a educação gaúcha é abrir nossas escolas, ampla e largamente, à iniciativa privada. Com isso, as instituições de ensino público do estado passariam a Organizações Sociais (Oss), tirando do governo a responsabilidade sobre a educação e, consequentemente, colocando um ponto final em concursos e contratações de funcionários.
As respostas aqui oferecidas para a pergunta que propomos são apenas alguns dos motivos que tornam esta greve necessária e legítima. Entretanto, não podemos finalizar este artigo sem falar em DIGNIDADE. Este movimento busca, em última instância, salvaguardar o fio de dignidade que ainda nos resta e defender, a todo custo, as conquistas que tivemos ao longo dos tempos em incontáveis embates. Por isso: SIGAMOS SEMPRE NA LUTA!





















Educação e transformação social




A Educação pública, se encarada como ferramenta de transformação social (voltada para a construção coletiva de conhecimento), pode ser base fundamental para impulsionar o esclarecimento da classe trabalhadora (a maior parte da população, a força de trabalho que realmente gera riqueza e sustenta toda a sociedade, mesmo submetida à exploração, sob a égide de um modo de produção - o capitalismo - calcado na hierarquia de poder e desigualdade).
Escolas precisam ser espaços de diálogos constantes, lugares propícios para o desenvolvimento intelectual e emocional, onde a arte, a filosofia e as ciências (como produtos da criatividade, imaginação e racionalidade humana) devem ser permanentemente moldadas pela colaboração e interação de todos, em construção coletiva, erigida sobre a herança cultural universal da humanidade.
O desenvolvimento da autonomia racional e criativa da pessoa humana deve ser o objetivo máximo de toda a educação, destacando sempre que tal só pode efetivar-se na interação harmoniosa, construtiva e cooperativa entre indivíduo e sociedade.
Sabemos que, no contexto do capitalismo (internacionalizado no processo de globalização), a educação sofre submetida aos ditames do mercado, o qual força o Estado a servir aos interesses da classe que hoje ainda controla os meios de produção e a mídia privada.
Uma educação para formação de mão de obra “acrítica e passiva” é a consequência da implementação dos projetos liberais (no âmbito econômico), combinados ao conservadorismo no campo da política institucional, que pesa e tenta moldar a sociedade através do poder estatal, somado à forte influência da ideologia propagada por intermédio dos meios privados de comunicação de massa. Romper com esse “esquema de controle e adestramento de comportamentos”, que impede o florescer da consciência de classe entre os(as) trabalhadores(as) e poda o pleno desenvolvimento intelectual de milhões de pessoas, é tarefa urgente!
Precisamos lembrar que, sem ação colaborativa, sem soma de forças, é inviável a luta contra o poder da classe dominante, que controla direta e indiretamente o Estado. De forma isolada, não podemos avançar muito na luta. Embora toda ação individual seja extremamente relevante, é coletivamente que vamos, de maneira efetiva, transformar a realidade.
Como professores(as) e funcionários(as) de escolas, temos responsabilidade no processo de tomada de consciência da classe trabalhadora, pois estamos em contato direto com a propagação do conhecimento científico, filosófico e artístico nas escolas públicas que atendem os filhos das famílias de trabalhadores (as). Participamos de uma etapa importante no desenvolvimento intelectual desses jovens, os quais, depois, irão ingressar nas universidades e no mundo do trabalho, onde poderão se aprofundar, ainda mais, na construção de conhecimento científico em prol da humanidade e nas lutas da classe trabalhadora da qual fazem parte.
Não podemos, jamais, esquecer nossa tarefa de colaboração na formação de sujeitos críticos, esclarecidos, autônomos e cientes do papel que cumprem na sociedade, como membros ativos da comunidade humana, visando à construção de uma sociedade livre e igualitária.
Paulo Vinícius Nascimento Coelho
(Professor de Sociologia e Filosofia – EEEM Cilon Rosa)





A alma dói e o corpo grita.


Vilsa Corrêa
Professora de Língua Portuguesa – EEEM Cilon Rosa

É chegado o tempo de imergir nas profundezas veladas de um sorriso acolhedor, entender a composição do meu professor. Urge o olhar no olhar, sem titubear. Perceber que ali há uma subsistência negada, um almoço desenhado no sanduíche e um pé calejado de tanto andar. Ler o que não está escrito, mas enxergamos, agora, precisamos parar de ignorar. Isto responde a pergunta certeira: Por que fazer greve?
Tudo que nasce de um conflito é dolorido, angustiante, amedrontador, no entanto, personifica uma nova forma de dar aulas, pois reflete sobre a consciência política e a necessidade de quebrar paradigmas sociais. Assim, neste momento de luta por direitos, conquistamos a tão almejada greve unificada, professores, funcionários, pais e alunos irmanados pela mesma causa, não querem mais ser silenciados por governantes e, tampouco, pertencer a uma classe esmagada por eles.
Desta forma, juntam-se e compõem um grupo coeso de pessoas conscientes, como diz Paulo Freire: “A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e do seu papel nela. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo”.
È com esta visão que somos lançados ao enfrentamento a quem nos oprime. Enviamos para longe o nosso grito de socorro, ficamos acorrentados na união de forças, que nos faz fortes e torna maviosa a nossa voz de angústia e desespero. Tudo é movido por uma dor antiga que vai invadindo a alma, destruindo sonhos e tirando o chão. O pior de tudo é que fizemos barulho, chamamos atenção, mas estamos frente a um governo déspota que tira o miolo do nosso pão e, mesmo assim, exige que sejamos felizes. Somos grevistas, por quê?